A. J. Gevaerd, editor da Revista
UFO
Está circulando desde segunda-feira, 26 de novembro, pelos diversos recursos da
Internet, uma informação estrondosa: a de que um disco voador teria caído em
Mato Grosso do Sul, que a área afetada estaria radioativa e que autoridades a
teriam isolado, com medo de contaminação. A notícia também dava conta de que
cientistas estrangeiros já estariam investigando o local, a pedido de Urandir
Fernandes de Oliveira, identificado nas mensagens como “especialista em
Ufologia”. A notícia atingiu agências e veículo de todo o Brasil e
exterior, repassada sem qualquer critério como verídica.
Como é de conhecimento público, quando o assunto é Ufologia, qualquer coisa
que venha de Urandir Fernandes de Oliveira é motivo de desconfiança e muita
suspeita. Neste episódio não há nada de novo: a história mais uma vez se
repete e Urandir aproveita um incidente relativamente comum para criar uma
fantasia sem o menor fundamento. E pior: envolvendo terceiros e promovendo descrédito
à Ufologia Brasileira. Desta vez, no entanto, o simples teor da notícia já é
sinal de forte exagero, como se discos voadores caíssem quase todos os dias, em
todos os cantos desse nosso planeta...
O lugar escolhido para o “UFO do Urandir” cair dessa vez foi,
coincidentemente, uma propriedade há cerca de 8 km da fazenda em que mantém
seu polêmico Projeto Portal. O local, na região conhecida como Colônia Boa
Sorte, é a Fazenda Boqueirão, propriedade de Túlio Alves. A área onde está
encravada sua fazenda é bela, com morros de pedra em volta e vales verdejantes,
que caracterizam esta região. Boa Sorte, como se sabe, é uma colônia constituída
por negros descendentes de escravos que formaram lá uma vila bastante precária,
em torno da qual florescem propriedades rurais de todos os tipos. Entre elas, o
Projeto Portal, alvo de inúmeras denúncias e investigações policiais.
No dia da veiculação das notícias na Internet, a Revista UFO esteve na
Fazenda Boqueirão acompanhada de uma equipe da TV Morena, filiada à Rede Globo
no Mato Grosso do Sul. A recepção que tivemos ao chegar à porteira não foi
das melhores, inexplicavelmente. Contrariando a costumeira hospitalidade
sul-mato-grossense, a proprietária relutou e não deixou as equipes da revista
e da TV entrarem, já levantando suspeitas sobre os fatos acontecidos. Se o episódio
da suposta queda fosse legítimo, como alardeado pela Internet, por que barrar a
imprensa e os ufólogos?
Não longe da cerca em que esperávamos, há uns 60 metros, havia a casa da
fazenda e alguns galpões, onde cerca de uma dúzia de pessoas observaram a
chegada das equipes da revista e da TV curiosamente, entre elas a senhora Maria
Lúcia de Souza, a Malu, ex-coordenadora do Projeto Portal em Porto Alegre, que
foi presa com Urandir quando se configurou o estelionato de que o Brasil já
tomou conhecimento, em março do ano passado (detalhes em
www.ufo.com.br/ufo71.htm).
Curiosamente, três pessoas da “equipe” de Urandir nos filmavam a distância,
com variados tipos de câmara, com propósito inusitado.
Ficou ainda mais forte, neste instante, a estranha suspeita, comum quando o episódio
envolve Urandir Fernandes de Oliveira. Mesmo assim, passados 10 minutos, o
senhor Túlio finalmente apareceu, mas foi igualmente ríspido com todos e
impediu veementemente a Revista UFO de entrar na propriedade. A equipe da TV
Morena acabou tendo autorização para tanto, depois de alguma negociação, mas
teve que aguardar mais uns 10 para receber informações. Foi uma curiosa sucessão
de esperas, que só aumentou a suspeita de que naquele local se armava algo
obscuro.
Tal suspeita se confirmou quando Urandir chegou à propriedade, junto de alguns
ajudantes, e estranhamente autorizou a entrada dos ufólogos. A equipe da TV
Morena entrevistou então numa primeira instância o senhor Túlio, que pareceu
estar falando a verdade, embora uma verdade bem diferente daquela espalhada na
Internet e entre os meios de comunicação como sendo a queda de uma nave alienígena.
Túlio é um proprietário rural típico daquela região: fala com simplicidade
e firmeza, e não pareceu ser dado a mentiras.
Descreveu, no entanto, algo simples, um fato quase corriqueiro daquelas
paragens. Disse, sem ser interrompido e até então sem demonstrar contradições,
que viu uma estranha movimentação de luzes nas duas últimas semanas sobre a
região. Disse ter conhecimento de que outras pessoas também as observaram,
aqui e acolá. E falou que no último sábado, 24 de novembro, por volta das
23:00 h, viu um fenômeno mais incomum. Mas antes de ele acontecer, segundo
narrou, ao ver que as luzes apareciam volta e meia, resolveu chamar seu vizinho,
o “especialista” Urandir, que compareceu ao local com outras pessoas e suas
câmeras.
Ainda sem se contradizer, por enquanto, afirmou Túlio que todos viram, na hora
mencionada, uma bola de luz de várias cores descer do céu, pairar por uns
instantes entre a casa de sua fazenda e um morro próximo, e depois descer mais
um pouco. Neste instante, tendo a visão do fato à sua frente, e não sobre sua
cabeça, e tendo um robusto morro de pedras ao fundo, disse que o objeto
simplesmente desapareceu no ar. Foi taxativo ao afirmar que a luz aumentou de
tamanho antes de sumir, mas que sumiu sem qualquer som. Ele informou que não
viu exatamente onde o objeto desaparecera, e que nem nos dias seguintes (domingo
e segunda) teve interesse de ir ao local, apesar de o mesmo ficar no máximo a
uns 300 metros da casa da propriedade.
Simplesmente isso! O senhor Túlio viu uma bola de luz descer do céu e sumir,
sem deixar vestígios, sem explosões, sem nada demais. Sua declaração soou
razoavelmente coerente, e apesar de sua inicial falta de hospitalidade e a
suspeita do envolvimento com Urandir em mais alguma farsa, a Revista UFO aceitou
seu depoimento, com restrições. Lamentavelmente, no entanto, logo depois
passou a contradizer-se ou a endossar contradições apresentadas por Urandir,
sem explicações. Urandir deu seu depoimento à TV Morena em seguida, mas sua
narração do fato foi absolutamente contraditória, como era de se esperar de
alguém que comprovadamente usou canetas a laser e faróis de milha para simular
visitas de seres espaciais. O Brasil inteiro sabe disso.
Curiosamente, garantiu Urandir que não queria publicidade do fato, mas foi
justamente seu pessoal, nas listas da Internet, que difundiu a estória da queda
de uma nave espacial em Corguinho. Equipes de vários veículos do Rio e São
Paulo contataram a Revista UFO para tentar confirmar informações prestadas a
eles por seu pessoal. O local da fantasiosa queda também não poderia ser mais
conveniente: poucos quilômetros do Projeto Portal. Entre os absurdos que
declarou na entrevista, disse que a luz foi vista em toda a região, ao contrário
do que afirmara o senhor Túlio. Disse que, quando sumiu, a luz explodiu com
barulho ensurdecedor, “tal como uma bomba atômica”. E não parou por ai:
“o local tem energias”, “há ondas emanando do ponto de impacto” etc.
Disse Urandir ainda, contrariando mais uma vez o senhor Túlio, que foi até o
local e viu sapos e cobras mortos. Oras, a equipe da TV Morena insistentemente
perguntou ao proprietário do local se ele ou alguém mais tinha ido lá. Túlio
garantiu várias vezes que não, “apesar de não ter medo”. Urandir também
afirmou que a polícia de Corguinho teria estado no local e quis isolar a área,
por um eventual perigo radiação. Fomos checar a história com o delegado do
município, doutor Marcos Balsanini, que confirmou ter estado no local, na
segunda-feira cedo, sem ter encontrado absolutamente qualquer anormalidade. Por
isso, nem sequer fez um boletim de ocorrência. Que dirá isolar a área...
O doutor Marcos não quis gravar entrevista. Prudente, receia que os poderes
constituídos do Estado venham a ser usados indevidamente por pessoas ou
instituições para dar credibilidade ao fato. Disse ainda que não havia no
local sequer uma árvore morta, um bicho morto, sinais de vegetação queimada,
arbustos quebrados. Nada, simplesmente nada havia onde o senhor Túlio afirmara
que vira o objeto desaparecer e onde Urandir garantia que uma nave espacial
extraterrestre, radioativa, tinha explodido feito uma bomba atômica. De fato,
também observamos que no local da suposta queda não há nada de estranho.
Sobre os animais alegadamente atingidos, segundo as notas distribuídas na
Internet, não há nada de extraordinário. Foram apenas dois bezerros que
tiveram, segundo seu proprietário, o senhor Túlio, cegueira parcial. Cada
bezerro perdeu uma vista. Mas isso se deu uma semana inteira antes do fato
acontecer. Portanto, não há qualquer ligação de tais ferimentos, que a
Revista UFO não teve autorização para observar, com o fenômeno.
Quanto à ampla divulgação, pela equipe do Projeto Portal, do nome do
artista e cantor Fábio Júnior, que estaria na propriedade e teria observado
tudo, inclusive a queda, restam muitas dúvidas. A Revista UFO procurou Fábio
e seu agente e não conseguiu determinar seu paradeiro. Resta aguardar, quando
ele surgir ao cenário nacional, suas declarações a respeito do ocorrido.
Como uma pessoa idônea que acompanha com interesse o desenvolvimento da
Ufologia em nosso país, os ufólogos duvidam que, quando der entrevistas,
endossará a farsa da queda.
Numa rápida avaliação que a Revista UFO fez dos fatos, aparentemente o
senhor Túlio viu um fenômeno legitimo, mas simples. Por enquanto, ainda sem
investigações mais detalhadas, apontamos duas hipóteses viáveis: (a) A
observação de um UFO um tanto incomum no local (ou pelo menos que não vinha
sendo relatado há tempos). (b) Um relâmpago globular. O que foi visto tem
características que se assemelham demais a este fenômeno atmosférico, que já
foi observado em muitos lugares e até mesmo naquele local. Um especialista no
assunto deverá ser consultado pela revista para determinar ao certo esta
possibilidade.
Tentando dar sustentação à sua teoria da queda de um UFO radioativo,
Urandir afirmou ter uma filmagem da cena dos UFOs sobrevoando o local e do fenômeno
luminoso que desapareceu no ar. Mas não quis ceder a fita, o que só faria
sob certas condições, é claro. As imagens, de poucos segundos, foram
exibidas pela TV Campo Grande, filiada ao SBT no Mato Grosso do Sul, e não
apresentam nada de estranho, exceto o fato de que o que foi filmado difere
radicalmente de como as testemunhas descreveram os fatos observados. Mais
contradições.
Sem ter acesso à fita, é claro, é difícil emitir opinião sobre sua
autenticidade. Mas quando se trata de Urandir Fernandes de Oliveira, já
flagrado inúmeras vezes fraudando ocorrências ufológicas, nem mesmo fotos e
filmagens de UFOs muito claras podem ser aceitas sem uma detalhada, minuciosa,
acurada e aprofundada pesquisa. A Revista UFO, no entanto, gostaria de poder
receber e enviar tal material a analistas credenciados.
Na seqüência das entrevistas, a TV Morena ouviu então Urandir, que se
contradisse flagrantemente, inúmeras vezes. Quando encerrou sua fala, a
primeira testemunha dos fatos a dar depoimento, senhor Túlio, perdeu o
controle emocional. Questionado pela Revista UFO sobre as contradições do
suposto “especialista”, ele recusou-se violentamente a responder as
perguntas e expulsou seu representante. O ufólogo simplesmente perguntou ao
senhor Túlio se, afinal, o objeto havia emitido barulho, como Urandir
afirmara, ou não, como ele garantiu várias vezes. As suspeitas só
aumentavam...
“Pois eu não vou responder!”, desferiu Túlio, categórico. Apesar de ser
um simples sim ou não, a testemunha rispidamente perdeu a calma e, com isso,
seu relato quase perdeu a credibilidade. A verdade é uma só, seja lá o que
aconteceu naquela fazenda, e contá-la corretamente não compromete ninguém.
Mas negar respostas é inaceitável, e negá-las com truculência é sinal
ainda maior de que algo não cheira bem na história toda. O senhor Túlio,
talvez por ingenuidade, talvez por camaradagem, mesmo vendo Urandir descrever
os fatos de forma extraordinariamente distorcida, não o corrigiu e nem mesmo
tentou explicar melhor o que se passou.
De qualquer forma, nada de mais aconteceu na Fazenda Boqueirão. Não caiu UFO
algum lá, nem na Colônia Boa Sorte, nem em Corguinho e muito menos no
Projeto Portal. Nada de grandemente extraordinário aconteceu naquele sábado,
24 de novembro, exceto uma observação quase corriqueira de um fenômeno.
Nenhuma área está sendo nem será isolada pelas autoridades, não há
radioatividade alguma no local, os animais supostamente feridos resumem-se a
dois bezerros que ficaram parcialmente cegos. E assim se desfaz mais uma
fantasia perpetrada contra o povo do MS, a comunidade ufológica e os órgãos
de imprensa.
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